Humanidade

As 4 palavras – Páscoa 2020

Este ano, para muitos cristãos, os dias da Semana Santa e da Páscoa – que as Igrejas ocidentais celebram a 12 de abril, enquanto que as Igrejas ortodoxas e as Igrejas ortodoxas orientais celebram a 19 de abril – serão uma experiência especial. Devido à pandemia do Coronavírus, não poderão participar fisicamente nas celebrações litúrgicas. No texto a seguir, do ano 2000, Chiara Lubich faz algumas propostas sobre como viver estes “dias sagrados”.

Hoje é a Quinta-feira Santa.

E nós que, devido à nossa espiritualidade que nasceu do carisma que o Espírito Santo nos concedeu, sentimo-la muito especial, não podemos deixar de fazer hoje uma pausa para meditar um pouco, contemplar, procurar reviver os mistérios que este dia nos revela, juntamente com os da Sexta-feira Santa, do Sábado de Aleluia e do Domingo de Páscoa.

Podemos resumir cada um destes dias com uma palavra que exprime, ou melhor, “grita” há mais de 50 anos no Movimento o nosso “dever ser”: Amor, a Quinta-feira Santa; Jesus Abandonado amanhã, a Sexta-feira Santa; Maria, o Sábado de Aleluia; o Ressuscitado, o Domingo de Páscoa.

Portanto hoje, o Amor. A Quinta-feira Santa – e neste dia muitas vezes experimentamos, ao longo dos anos, a doçura de uma particular intimidade com Deus – recorda-nos aquela profusão de amor que o Céu derramou sobre a terra.

Amor, antes de mais, é a Eucaristia, que nos foi doada neste dia.

Amor é o sacerdócio, que é serviço de amor e nos dá também a possibilidade de ter a Eucaristia.

Amor é a unidade, efeito do amor que Jesus, num dia como este, implorou ao Pai: “Que todos sejam um como eu e tu” (Jo 17, 21).

Amor é o mandamento novo que Jesus revelou neste dia antes de morrer: “Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 34-35). Este mandamento  permite-nos viver aqui na terra segundo o modelo da Santíssima Trindade.

Amanhã: Sexta-feira Santa. Um único nome: Jesus Abandonado.

Escrevi um livro sobre Ele, intitulado: “O Grito”. Dediquei-o a Ele com a intenção de escrevê-lo também em nome de vocês, em nome de toda a Obra de Maria, “como – esta é a dedicatória – uma carta de amor a Jesus Abandonado”.

Nele falo sobre Jesus, que, na única vida que Deus nos concedeu, um dia, um dia específico, diferente para cada um de nós, nos chamou para segui-lo, para doarmo-nos a Ele.

É compreensível então – declaro-o ali – que todas as minhas palavras naquelas páginas não podem ser um discurso, mesmo familiar, caloroso, íntimo, sincero; mas querem ser um canto, um hino de alegria e, acima de tudo, de gratidão a Ele.

Ele tinha doado tudo: viveu ao lado de Maria, suportando dificuldades e sendo obediente. Três anos de pregação; três horas na cruz, de onde perdoa os seus algozes, abre o Paraíso ao Bom Ladrão, doa-nos a sua Mãe. Restava-lhe a divindade.

A sua união com o Pai, a doce e inefável união com Ele, que O tinha tornado tão potente aqui na terra, como filho de Deus, e tão majestoso na cruz, a presença sensível de Deus devia retrair-se no fundo da sua alma e tornar-se imperceptível, de alguma forma devia separá-Lo daquele com quem Ele disse ser uma coisa só, até gritar: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46).

Depois de amanhã é Sábado de Aleluia. Maria está sozinha. Sozinha com seu filho-Deus morto. Um abismo de angústia inconsolável, um sofrimento dilacerante? Sim, mas ela permanece firme, de pé, tornando-se um exemplo excelso, um monumento de todas as virtudes. Maria espera, acredita. As palavras de Jesus que anunciavam a sua morte, mas também a sua ressurreição, talvez tenham sido esquecidas por outros, porém nunca por Maria: “Conservava estas palavras, com todas as outras, no seu coração e meditava-as” (cf. Lc 2, 51).

Portanto, Maria não sucumbe à dor: espera.

E, finalmente, o Domingo de Páscoa.

É o triunfo de Jesus Ressuscitado que conhecemos e revivemos também em nós pessoalmente, no nosso pequeno âmbito, após termos abraçado o abandono ou quando, unidos realmente no seu nome, experimentamos os efeitos da sua vida, os frutos do seu Espírito.

O Ressuscitado deve estar sempre presente e vivo em nós neste ano 2000, no qual o mundo deseja ver não só pessoas que acreditam e de alguma forma O amam, mas que são também testemunhas autênticas, que podem dizer a todos por experiência, como Madalena disse aos Apóstolos após ter encontrado Jesus perto da sepultura, aquelas palavras que conhecemos, mas que são sempre novas: “Nós vimo-Lo!” Sim, nós descobrimo-Lo na luz com que nos iluminou; o tocamos na paz que nos infundiu; ouvimos a sua voz no íntimo do nosso coração; saboreamos a sua alegria incomparável.

Lembremo-nos, então, nestes dias, dessas quatro palavras: amor, Jesus Abandonado, Maria, o Ressuscitado.

Chiara Lubich

(Castel Gandolfo, 20 de abril de 2000)

“Le 4 parole”, in: Chiara Lubich, Conversazioni in collegamento telefonico, pag. 588. Città Nuova Ed., 2019.