Palavra de Vida – outubro 2026

Em pdf texto – crianças

«Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás,
porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egito»
(Ex 22,20)

A Palavra de Vida deste mês é retirada do livro do Êxodo, que narra as condições cada vez mais difíceis dos israelitas no Egito. Oprimidos e reduzidos à escravidão, clamam ao Céu pedindo ajuda. Esse clamor chega ao coração de Deus, que decide intervir, escolhendo Moisés como seu enviado. Depois da libertação, realiza-se a cerimónia que sela a Aliança entre Deus e Israel. O documento que exprime essa relação é o chamado «Código da Aliança»[1], aceite por todo o povo[2], cuja parte mais conhecida são os Dez Mandamentos. A estes juntam-se outras prescrições e leis de vária ordem, todas ligadas ao acontecimento extraordinário da libertação. A frase deste mês provém deste conjunto de normas de vida e de comportamento.

«Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás,
porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egito»

O estrangeiro faz parte das categorias que Deus privilegia e protege, juntamente com o pobre, o órfão e a viúva, por ser uma das mais vulneráveis.

A razão de ser desta norma apela, antes de mais, à memória da experiência vivida na escravidão do Egito. A intervenção poderosa de Deus no Êxodo é constantemente recordada ao longo do Antigo Testamento. Trata-se de um acontecimento que o povo deve conservar sempre vivo na memória, como uma realidade que continua a repetir-se, de formas diferentes, em cada geração. É significativa a afirmação de Orígenes, no seu comentário ao livro do Êxodo: «Quem oprime o estrangeiro mostra que ainda não saiu do Egito»[3].

Este mandamento convida também à empatia: colocar-se no lugar do outro ajuda-nos a compreendê-lo e a perceber aquilo de que realmente necessita. Quem passou por uma experiência difícil tem mais facilidade para se identificar com o sofrimento alheio. No entanto, no Antigo Testamento não se trata apenas de uma experiência humana. O primeiro a dar o exemplo do que significa entrar na situação dos outros é o próprio Deus.

«Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás,
porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egito»

Como pôr em prática esta Palavra de Vida? Pode ser útil fazermo-nos algumas perguntas: já alguma vez fiz a experiência de ser estrangeiro? Já me senti não aceite, mal recebido, incompreendido ou deslocado? O que aprendi com essas situações? Quem é o estrangeiro para mim? E quem é o estrangeiro para Deus? Como posso acolhê-lo sem reservas, tal como o Senhor nos acolhe? O que posso fazer de concreto?

Escreve Chiara Lubich: «Diante de Deus que não faz aceção de pessoas, como não abrir o coração à fraternidade universal? Sendo filhos do mesmo Pai, podemos descobrir-nos irmãos e irmãs de cada homem e de cada mulher que encontramos. Se somos todos irmãos e irmãs, devemos amar a todos, começando por aqueles que estão mais próximos de nós, sem parar. O nosso amor não será então um amor platónico, abstrato, mas um amor concreto, feito de serviço. Um amor capaz de ir ao encontro do outro, de iniciar um diálogo, de entrar nas suas dificuldades, de carregar os seus pesos e preocupações. Até ao ponto de o outro se sentir compreendido e acolhido na sua diferença, livre para exprimir toda a riqueza que traz dentro de si»[4].

É esta a experiência de Maryam, uma jovem paquistanesa:

«Num estabelecimento, vi o proprietário recusar um chá a uma senhora idosa. Tinha apenas algumas rupias (a moeda local) no bolso, mas senti que devia ajudá-la. Aproximei-me então do proprietário e ofereci-me para pagar o chá.

Ao princípio, olhou para mim com hesitação. Depois de uma breve pausa, sorriu e disse: “Não, isso não está certo. Se tu, que és cliente, estás disposta a gastar o pouco que tens para cuidar dela, quanto mais eu, que sou o proprietário, devo ser generoso! Para mim é mais fácil oferecer-lhe uma chávena de chá gratuitamente do que deixar-te pagar.”

Foi uma experiência muito marcante. Ao procurar demonstrar amor, primeiro àquela senhora e depois ao proprietário, vi como um simples gesto de bondade pode abrir o coração de outra pessoa.»

Preparado por Augusto Parody Reyes e pela equipa da Palavra de Vida.

[1] Ex 20-23. [2] Cf. Ex 24. [3] Orígenes, Homiliae in Exodum V,5. [4] C. Lubich, Palavra de Vida de maio de 2006, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi, (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, p. 780.