«Fica connosco, porque anoitece» (Lc 24,29)
A estrada para Emaús fala-nos de um caminho percorrido por dois discípulos de Jesus. Desiludidos dos sonhos, dos projetos, dos momentos fortes que tinham transcorrido com o Mestre, voltavam para casa para retomar a vida que tinham deixado, antes de O terem encontrado. Tinham passado apenas três dias desde a Sua crucifixão e a desilusão, o medo e as dúvidas reinavam entre os Seus seguidores.
Afastavam-se de Jerusalém, do sonho que ficou por realizar, distanciando-se de Cristo e da Sua mensagem. “Tristes” porque, de algum modo, já tinham tomado a decisão de abandonar o projeto pelo qual O tinham seguido.
É a história de cada um de nós, quando nos sentimos perdidos diante de situações que nos obrigam a ter de escolher entre vários caminhos e, muitas vezes, parece-nos que a solução, a única resposta ao nosso mal-estar, é voltar para trás, renunciar, resignarmo-nos.
«Quem de nós não se reconhece no albergue de Emaús? Quem nunca caminhou por essa estrada, numa noite em que tudo nos parecia perdido? Cristo tinha morrido em nós … Já não havia nenhum Jesus na Terra»[1].
«Fica connosco, porque anoitece»
Durante o caminho, um desconhecido junta-se aos dois discípulos, parecendo desconhecer os acontecimentos ocorridos nos dias anteriores. Começa a fazer perguntas concretas, que fazem voltar toda a amargura e o desconforto. Primeiro escuta-os e depois começa a explicar-lhes as Escrituras: é um verdadeiro diálogo, um encontro que os marca profundamente, a tal ponto que, mesmo se ainda não tinham reconhecido Jesus, O convidam para ficar com eles porque estava a anoitecer[2].
Esta é talvez uma das orações mais bonitas que encontramos nos Evangelhos. É a primeira oração que os discípulos dirigem ao Ressuscitado, e é comovente este convite que todos Lhe podemos dirigir, para que Ele permaneça connosco e entre nós.
Os olhos dos dois discípulos vão abrir-se ao partir do pão, e a alegria de O terem finalmente reconhecido vai impulsioná-los a voltar a Jerusalém, para anunciar aos seus amigos o acontecimento desta ressurreição.
«Fica connosco, porque anoitece»
Escreveu Chiara Lubich: «Talvez nada explique tão bem como estas palavras a experiência que nós, focolarinas, fizemos desde o início: viver com Jesus no meio de nós. Jesus é sempre Jesus e, quando está presente – ainda que só espiritualmente –, explica as Escrituras e faz arder no peito a sua caridade: a vida. Faz-nos dizer com infinita saudade, depois de O termos conhecido: “Fica connosco, Senhor, pois a noite vai caindo, sem Ti a noite é escura (…)”»[3].
A noite é símbolo das trevas, do desconhecido, daquela luz que não conseguimos encontrar, porque não acreditamos na Sua presença, que continua sempre a acompanhar-nos.
É a noite que cobre o nosso planeta, ferido e violentado por lutas fratricidas, por guerras que continuam a ser orquestradas pela ganância de poder e de dinheiro.
É a noite em que vivem milhões de pessoas, que já não têm voz para gritar contra as injustiças e as prepotências.
E nós, como podemos tomar consciência da presença de Jesus, que nem sempre se manifesta de acordo com as nossas expectativas? Como compreender que Ele caminha connosco e procura fazer-nos reconhecer os sinais da Sua presença? E, sobretudo, como criar as condições para que Ele se manifeste e permaneça connosco?
São perguntas para as quais talvez nem sempre tenhamos uma resposta, mas que nos impelam a não descurar a procura de Jesus, a concentrar o nosso olhar num Companheiro de viagem que habitualmente não vemos, a reconhecer Aquele que se pode tornar presente se, entre nós, vivermos o amor recíproco.
A estrada de Emaús é o símbolo de todos os nossos caminhos, é a estrada do encontro com o Senhor, é a estrada que nos devolve a alegria do coração, nos leva de volta à comunidade para testemunharmos juntos que Cristo ressuscitou.
Texto preparado por Patrizia Mazzola e pela equipa da Palavra de Vida
[1] François Mauriac, Vita di Gesù, Mondadori, Milano, 1950, p. 156. [2] Cfr. Lc 24,17-29. [3] Chiara Lubich, Que todos sejam um, Edição do Movimento dos Focolares, Braga, 19752, p. 119-120.
